Tietei, explicitamente, poucas pessoas na vida. Nilda Spencer foi uma delas. A primeira vez que a encontrei fora dos palcos foi num elevador, há uma cara de anos atrás. Entrou e me cumprimentou, educadamente. Respondi emocionado e, ato contínuo, declarei-me seu fã e ela, envaidecida e gentil, agradeceu cortesmente.
Passados outros tantos anos, agora já em 2001, recebo a visita da minha musa, na Coelba, onde eu coordenava o programa de marketing cultural. Acompanhada pela produtora Virgínia Da Rin, buscavam patrocínio para o projeto que comemorava os 80 anos de Nilda: Ensina-me a Viver.
Objeto de desejo de toda atriz madura, o texto de Colin Higgins pareceu-me ter sido escrito especialmente para Nilda Spencer.
De imediato, e com grande entusiasmo, abracei o projeto. Um grande e belo texto, perfeito para uma grande e bela atriz no esplendor dos seus 80 anos.
E foi o sucesso que foi. Vários meses em cartaz em diversas salas, sempre com grande público.
Apoiada por um competente elenco (Narcival Rubens, Aicha Marques, Gideon Rosa, Lucas Valadares), La Spencer dava vida àquela que bem poderia ser a sua alma gêmea: a doce, surpreendente e cativante Maude.
Dirigida por José Possi Neto, a montagem recebeu o Prêmio Copene de Teatro (hoje, Prêmio Brasken) na categoria Melhor Espetáculo (concorreu ainda nas categorias Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante).
Em função da minha atividade profissional, assisti inúmeras vezes o espetáculo, sempre com renovada emoção, e costumava brincar com Nilda dizendo que, na falta de qualquer dos atores, eu poderia substituí-lo, uma vez que já conhecia o texto de cor.
Com Ensina-me a Viver pude conhecê-la melhor e, com isso, a minha admiração por ela aumentou mais ainda.
Tenho uma profunda admiração e um enorme respeito pelos atores baianos da "velha guarda", tais como Wilson Melo, Carlos Petrovich, Yumara Rodrigues, Mario Gusmão, Aidil Linhares, Nilda e tantos outros.
Na época em que fizeram a opção pelo teatro, vivíamos em uma província atrasada onde somente vagabundos e/ou loucos se lançavam nessa aventura de grande denodo e quase nenhum reconhecimento. Não havia, então, o brilho sedutor das novelas da Globo, e o cinema nacional (afora as chanchadas e pornochanchadas) não atraía o interesse do público.
Portanto, somente o amor, a paixão, a obsessão pela arte poderia levar alguém a optar pelo teatro.
São assim, esses vagabundos adoráveis, esses loucos divinos. Doces, visionários, desvairados, desmedidos, à frente dos seus tempos.
É assim, Nilda Spencer. Suave, etérea, envolvente... como Maude.
Para sempre.
"Quando lembro dela, lembro de alegria. Acho que talvez tenha sido a artista mais baiana de todos os tempos, ela traduzia a alegria da Bahia Era uma excelente atriz e excelente companheira de trabalho... Ela era uma eterna festeira, a casa dela era uma festa, onde ela ia, onde chegava, era sempre uma festa..."
Fernando Guerreiro
Nilda é uma das iniciadoras do teatro baiano. Começou nos anos 40 com os amadores, se engajou na Escola de Teatro logo no início e tornou-se uma espécie de cúmplice cênico de Martins Gonçalves. Foi ela quem conseguiu levar as platéias chiques à Escola. Ela participou de todas as vertentes do teatro baiano e sempre foi muito querida, muito amada pelos colegas – o que é difícil – e pela platéia. Nilda entrou na minha vida num momento muito doloroso, quando convivíamos com a ditadura que asfixiava o pensamento. E Nilda era um sopro de liberdade no meio disso. Ela era 30 anos mais velha que nós e estava conosco, nas festas hippies da Boca do Rio. Ela era a única da sua geração e isso era lindo. Ela era muito jovem, sempre, e com certeza morreu assim. Ela viveu muito bem, viveu como quis, e isso é importante.
Aninha Franco
"É com tristeza e comoção que recebemos a notícia da morte da amiga e atriz Nilda Spencer. Mãe de todas as atrizes, inspiração de gerações de artistas...
O Teatro baiano é grato ao seu exemplo e a sua dedicação total aos palcos. A cena baiana é mais rica porque teve o privilégio de sua presença..."
Márcio Meirelles
O teatro brasileiro, particularmente o baiano, perde hoje uma de suas maiores atrizes. Uma mulher apaixonada pela cena, cheia de luz e alegria, e grata a Deus por lhe indicar o caminho do encantamento através do teatro. Queridíssima amiga e guia de tantos jovens artistas- eu sou exemplo disso - foi minha querida Nilda a porta-voz do convite para que eu substituísse Nara Leão no show Opinião, no Rio de Janeiro, em 1965. Ela estava tão feliz como se fosse um convite para ela mesma. Eu, até então, só a conhecia por seus trabalhos em cena. Vibrante, brilhante, generosíssima e muito, muito divertida, Deus certamente está querendo nos presentear com mais uma estrela no céu, pra clarear os escuros daqui.
Maria Bethânia
É uma perda grande para os artistas. Ela era uma pessoa cheia de vivacidade, um exemplo de companheirismo na cena e na vida. Um dos maiores privilégios que qualquer ator pôde ter foi contracenar com ela, por causa de sua generosidade, amabilidade e delicadeza. Ela se entregava por inteiro, e compartilhava. Nilda vai ficar na memória como uma das atrizes mais desbravadoras do teatro da Bahia. Ela chegou a fazer teatro dentro do ônibus, no percurso Canela-Praça da Sé
Gideon Rosa
(Depoimentos: A Tarde On Line)